CONSTITUIÇÃO SUSPENSA COM GOLPE CONTRA MÍDIA NA TURQUIA!

CONSTITUIÇÃO SUSPENSA COM GOLPE CONTRA MÍDIA NA TURQUIA!

Hoje, dia 29 de outubro de 2015, a Turquia teve um dos piores dias da sua história. A liberdade de imprensa, um dos pilares da democracia, não existe mais na Turquia! 
 
Polícia turca arrombou o portão e entrou na sede do grupo de mídia Koza Ipek, durante emissões ao vivo, e assumiu controle de canais de Bugün TV e Kanaltürk. A ação aconteceu através de uma decisão jurídica proposta pelo presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, nomeando um representante do Governo como “administrador imposto” (kayyum). Ou seja, governo tomou controle total de um grupo de mídia particular na Turquia. Mais de 80% da mídia (tanto multimídia quanto impressa) já estão sob controle do Governo. Na ação violenta a polícia usou gás lacrimogêneo e jatos d'água contra os funcionários que tentaram impedir a entrada da polícia no prédio.
 
                                                                                                                    Foto: Usame Ari/Zaman/AFP
 
O primeiro trabalho do “novo administrador”, que entrou na sede assim que a polícia arrombou as portas, foi demitir o diretor das emissoras Bugun TV e Kanalturk, Tarik Toros , e o editor-chefe dos jornais Bugun e Millet, Erhan Basyurt. "Queridos telespectadores, não se surpreendem caso vejam a polícia em nosso estúdio nos próximos minutos", disse Toros diante das câmeras e essas foram suas últimas palavras como diretor da emissora.
 
                                                                   Foto: AFP PHOTO / ZAMAN DAILY / MEHMET ALI POYRAZ
 
Presidente Erdogan e o Governo turco vêm intimidando, multando, impedindo o funcionamento independente da mídia crítica desde revelação das corrupções em dezembro de 2013. Entre muitas ações anticonstitucionais que foram praticadas contra mídia na Turquia, foi censura aos canais não pró-governo nas empresas pró-governo de tv a cabo e de satélite. As empresas TiViBu, Digiturk, Teledunya, Turkcell e Turksat retiraram os canais Samanyolu, S Haber, Bugun, Kanalturk, Mehtap TV, Irmak TV e canal infantil(!) Yumurcak TV, em outubro de 2015. Ou seja, uma grande parte da população turca apenas assiste aos canais pró-governo.
 
 
Até então, vários jornalistas foram presos por seus artigos, discursos, e até tweets críticos às ações autoritárias do Governo e de Erdogan. Hidayet Karaca, presidente do grupo de mídia Samanyolu está preso desde 14 de dezembro de 2014 por causa de algumas frases num seriado (fictícios) transmitido num canal do grupo há 5 anos, embora não seja da sua autoria e nem de sua direção. Ex-promotos e colunista Gültekin Avci foi preso em 18 de setembro de 2015 por causa de um artigo que escreveu na sua coluna no jornal Bugun. A acadêmica e jornalista Deniz Ulke Aribogan foi demitida da emissora estatal TRT onde fazia um programa de debate há anos, 3 horas depois de postas um tweet criticado a invasão da polícia turca no grupo de mídia Koza Ipek, em 01 de setembro de 2015. Jornalista Bulent Kenes, editor chefe do jornal Today’s Zaman ficou preso por 6 dias por causa de um retweet de mensagem do líder do partido de oposição CHP (Partido Republicano do Povo), Kemal Kiliçdaroglu. O grupo de mídia Dogan, que detém canais Kanal D e CNN Turk e jornais Hurriyet, Turkish Daily News, Fanatik e Posta já foi invadido pela polícia turca e multada inúmeras vezes.
 
As empresas que não apoiam o Governo turco têm tido experiências mais difíceis de suas histórias, com investigações incessantes, multas sem motivo legal e judicial, como o caso de Boydak Holding e Ipek Holding.
 
Acusação
A justiça turca, por sinal, tomada pelo Governo com várias emendas constitucionais que subordinam o sistema judiciário ao Ministro da Justiça, acusa que o grupo Koza Ipek financia e faz propaganda a favor do erudito turco Fethullah Gülen, inspirador do Movimento Hizmet. 
 
As agências de notícia apresentam-no como principal rival do presidente Recep Tayyip Erdogan, porém não se trata de um político ou de um líder de uma ideologia política. Os simpatizantes e adeptos do Movimento Hizmet apoiaram o AKP, partido do Erdogan, no início por causa das promessas de maior democracia, mais liberdades e reformas para ingresso da Turquia à União Europeia. Mas, após 2011, quando Erdogan e AKP começaram a demonstrar uma mudança no seu sistema de governar, deixando de lado esses valores, e principalmente após a revelação de corrupções em dezembro de 2013 e ações ilegais que envolvem Síria, Irã e Arabia Saudita, esse apoio  (pelos votos, nunca financeiro) foi cortado. A partir daí que Erdogan e Governo declaram o Hizmet como principal inimigo.  
 
Repercussão
"Quando os distintos pontos de vista a que os cidadãos têm acesso são reduzidos, em particular antes das eleições, é uma fonte de inquietação", escreveu no Twitter o embaixador dos Estados Unidos na Turquia.

"Continuamos pressionando as autoridades turcas para que suas ações respeitem os valores democráticos universais, incluindo a liberdade de imprensa e de reunião", afirmou na terça-feira o porta-voz do Departamento de Estado americano, John Kirby, após invasão da polícia na sede do Koza Ipek Holding.
 
O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, escreveu no Twitter que “está muito preocupado com a tomada de controle do Ipek Koza pouco antes das eleições”.
 
Em comunicado, a porta-voz chefe da diplomacia europeia, Catherine Ray, considerou preocupante a ação da justiça turca em nomear um administrador pró-governo como gestor do grupo Koza. "A situação a respeito do grupo Koza-Ipek é preocupante e está sendo acompanhada de perto. Queremos reiterar a importância do respeito à lei e à liberdade de imprensa. A Turquia, como país candidato à adesão ao bloco, deve garantir o respeito aos direitos humanos, que inclui a liberdade de expressão. Vamos continuar apresentando o tema da liberdade às autoridades turcas", concluiu.
 
A Turquia ocupa a posição 149 entre os 180 países citados na classificação mundial da liberdade de imprensa da ONG Repórteres Sem Fronteiras, atrás de Mianmar (144) e um pouco à frente da Rússia (152).
 
Fontes: